In Brazil it still is quite ordinary to use the expression, literally translated, ‘iron yourself’ (se ferrar) as a means to curse someone.  But it is only from the seventeenth century, with the regulatory jurisdiction of the slave trade during modern times, that the term ‘ferrar‘ started to be used on the Portuguese language to talk about human beings. When we use such expressions today, we reiterate the grammar value of an existing colonial past in which enslaving the other is a non serious thing—thus the importance of the national memorial festivity of the Brazilian Black Conscience day.


Hoje, dia 20 de Novembro, é comemorado o dia da Consciência Negra no Brasil. Qual o valor desta celebração para a cultura nacional? Muitas críticas são e foram feitas com respeito ao caráter segregacionista de uma festa de âmbito nacional que visa um grupo específico de cidadãos. No lugar de tentar justificar dia tão importante para o Brasil, decidi aqui analisar um exemplo de racismo sistematizado contra os negros no quotidiano do qual poucas pessoas, ou nenhuma, normalmente se dão conta. Para assim mostrar que há legitimamente um sentido em destacar a cultura negra como grupo detentor de direitos específicos à memória. É o caso do verbo utilizado no xingamento: “ferrar.

Quem nunca falou “vai se ferrar!” ou “me ferrei”, etc. com bastante normalidade? Uso, inclusive, esperado visto que o verbo está na gramática coloquial do dia a dia. Mas o que pode a origem do seu significado nos mostrar sobre a história de sua utilização? Na língua portuguesa os primeiros indícios de uso da palavra ‘ferrar’ surgem no século XIV com relação à implantação de estruturas de ferro nas embarcações, não havendo portanto qualquer relação com o corpo humano. Outras formas de uso apareceram igualmente ao longo do tempo com a popularização da prática de ‘ferrar os animais’, no sentido de lhes colocar ferraduras. Mas será somente a partir do século XVII, nomeadamente após a criação do Código Negro francês (que serviria como modelo de jurisdição regulatória do tráfico de escravos na modernidade), que o termo ‘ferrar’ seria utilizado para falar de seres humanos. Assim a prática de ‘ferrar’ o homem ou a mulher, de terras colonizadas, passaria a ser atividade comum da vida colonial. O filósofo francês Jean-Louis Chrétien, em seu livro Para retomar e perder o alento (2009 ed. Bayard, no momento sem tradução para o português), diz “todos os terrenos se deterioram, mesmo os mais íngremes, e o terreno das palavras não escapa à esta lei do tempo.” Se hoje se utiliza ‘ferrar’ com uma certa banalidade e mesmo com uma predileção a outros xingamentos vistos como mais obscenos, a gênese de sua utilização nos esclarece quanto ao real significado original.

Ora, se o passado colonial de nossa história demonstra os horrores da escravatura como prática genocidária — responsável pela documentação de corpos mutilados incontáveis, do negro golpeado sobre a terra, ferrado ao pescoço, correntes aos tornozelos, nariz e orelhas cortadas, e a carne das costas dilacerada até aos ossos pelo arado (cf. Louis Sala-Molins 2012, O Código Negro),  a utilização do verbo ‘ferrar’ pelos brasileiros hoje é escandalosa. A leviandade com a qual se usa o termo, no entanto, não é apenas inconsciência de quem fala, é um inconsciente social construído através de violência secular normalizada na nossa sociedade. Pretender sermos um país onde não há preconceito e onde os fundamentos republicanos de igualdade de direitos seriam suficiente para garantir a manutenção da dignidade de todos os cidadãos não é só falhar teoricamente, é gozar da monstruosa injustiça cometida contra grupos específicos de nossa nação. A separação de grupos sociais dotados de direitos específicos, como é o caso aqui do direito à memória da cultura negra, não visa instaurar uma desigualdade jurídica onde não existe, mas ao contrário reparar uma violência histórica que impede a concretização dos princípios de nossa constituição.

A questão que fica é: Por que um xingamento que deveria ser abolido da nossa gramática passa com tanta naturalidade aos ouvidos de quem promove a animalização do outro com um vai se ferrar, ou ainda animalização de si mesmo com um inocente me ferrei” ? Quando utilizamos tais expressões, reiteramos o valor de um passado gramatical-colonial ainda existente, no qual escravizar o outro é coisa pouco grave. O preconceito é assim: passa despercebido, silencioso, sob forma de violência normalizada. Esperemos que o dia da consciência negra sirva como festividade memorial para impedir a manutenção de uma tal história.