Nowadays we still see regular schools rejecting or dismissing students with disabilities, or even worse, accepting those students, but excluding them inside the classroom, with little or none curricular adaptation. Through dance teaching, we can provide image enhancement and body awareness of the student as well as their creativity, expressiveness, motor and cognitive skills, and promote self-assertion and enhancement of self-esteem. Art can thus be the gateway to the improvement of human relations and construction of a more just and equal society.


Por Flora Bitancourt Sapienza Gramorelli

Quando ingressei na faculdade de dança na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em São Paulo, tinha comigo a certeza que buscava um caminho para transmitir às pessoas o amor que eu sentia pela arte de dançar e tentar entender o por que me sentia tão bem ao sair de uma aula ou de um espetáculo. Com o tempo fui entendendo a importância dessa nova forma de comunicação, uma comunicação mais sensorial e menos racional.

Ao longo da graduação tive diversas matérias que aprofundaram o meu autoconhecimento, o contato com a minha expressão interior, minhas memórias corporais, como por exemplo as técnicas de educação somática, dança contemporânea, e a experiência com a metodologia Bailarino-Pesquisador e Intérprete da Profª. Dra. Graziela Rodrigues. Mas foi em 2010, ao fazer um período de estudos em Portugal que tive a oportunidade de conhecer a Dança Movimento Terapia, uma linha de pesquisa que parte do princípio que mente e corpo estão conectados e que, portanto, exercitando o corpo você estará consequentemente exercitando a mente. Desde então, e pelo aprofundamento nestas pesquisas, pude em 2011, ao regressar ao Brasil, idealizar o projeto MOVIMENTARTE.

O Movimentarte trata-se de uma iniciativa que tem o intuito de divulgar através de aulas de dança, palestras, oficinas e workshops a importância da Dança e da Arte no desenvolvimento das pessoas. Acreditamos na força da arte como um novo caminho de transformação social. Temos o objetivo de potencializar o desenvolvimento das pessoas com deficiência e abrir uma ponte para que a sociedade possa se integrar a esse universo.

A arte ajuda a expressar o que não se consegue apenas com palavras. Assim sendo, a dança, como linguagem artística, é um meio de comunicação. Como define Castilho (J. Gomes, S.,  2003 Dança e Educação em Movimento, p.109): “A dança permite materializar o movimento da vida [.]” Portanto, é de extrema importância que a dança esteja presente na educação de todas as pessoas, mas para além disso observamos que ela se tornou uma ferramenta essencial no desenvolvimento da autonomia e independência de pessoas com deficiência. O ensino da Dança proporciona o aprimoramento da imagem e consciência corporal do aluno, bem como sua criatividade, expressividade, habilidade motora e cognitiva, além de promover a auto-afirmação e valorização da auto-estima. Acredito que todos têm algo a contribuir para o mundo e que a arte pode ser a porta de entrada para o contato com a própria essência e os próprios valores. Com a valorização das relações humanas podemos construir uma sociedade universalmente mais justa e igualitária.

O tema da deficiência deve ser visto de forma mais ampla, e as lutas pelos direitos não devem ser travadas apenas por aqueles que a vivenciam de perto. Devemos enxergar  essa discussão como uma oportunidade de avaliar alguns valores humanos, como a resiliência e a empatia, ou seja, saber se colocar no lugar do outro, sem tantos preconceitos e julgamentos, aprender a respeitar as diferenças e valorizar a beleza da diversidade.

Hoje o deficiente ainda sofre rejeições retrógradas, como ser ignorado na rua, receber um olhar de piedade, ou até mesmo o distanciamento de seus concidadãos no espaço público. Um verdadeiro absurdo que vem carregado não só de ignorância, mas de desrespeito iníquo. De acordo com o IBGE (Censo/2010), cerca de 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. E ainda assim, são extremamente escassas as atividades culturais e artísticas voltadas para pessoas com deficiência intelectual.

O tema da deficiência ainda é muito marginalizado e pouco debatido. Há menos de uma década as pessoas com deficiência começaram a sair de suas casas, onde eram escondidas e excluídas por conta de suas deformidades. Não se pode negar que foram muitos os avanços na inclusão social de pessoas com deficiência, porém alguns pesquisadores ainda demonstram que a inclusão  permanece—e muito—somente no campo da teoria, e pouco se vê na prática. Como complementa Eliene Alvez (ALVEZ, E. Indicadores de inclusão euridianos, 2011):

“no nosso país, o exercício desses direitos é dificultado por conta das precárias oportunidades oferecidas, o que incide no insuficiente atendimento aos sujeitos com necessidades educativas especiais (estruturas física e humana).”

E isso é comprovado na prática. Ainda hoje, vemos escolas regulares rejeitando ou mandando embora alguns alunos com deficiência, ou o que é ainda pior, aceitando esses alunos, mas, os excluindo dentro das salas de aula, com pouca ou nenhuma adaptação curricular.

Portanto, constatamos que a maioria das escolas brasileiras estão despreparadas para receber esses alunos e observamos que a falta de conhecimento é o maior vilão do processo de inclusão, na educação e na sociedade brasileira como um todo. As políticas públicas atuais estão, em sua maioria, voltadas para o cumprimento do direito dos alunos com deficiência estarem dentro das escolas regulares, e muito pouco para o desenvolvimento de um plano de inclusão e reestruturação institucional que prepare verdadeiramente os gestores e professores dos estabelecimentos de ensino. Tampouco existem ações como as representadas pelo Movimentarte, com o foco no desenvolvimento da pessoa com deficiência, buscando a exploração do potencial individual de cada um, sem tentar importar modelos externos tão distantes daquela realidade e possibilitando uma inclusão mais verdadeira, integrada e humana.

A visão que o nosso projeto propõe e busca defender é a necessidade de oferecer uma nova abordagem à educação inclusiva, reconhecendo a arte como um caminho mais efetivo e inovador. Oferecemos uma estrutura de aprendizagem que parte de dentro para fora. Acreditamos que as pessoas precisam entrar em contato com elas mesmas, desenvolvendo o conhecimento de si. Assim, é possível abrir espaço para absorver os ensinamentos do mundo e melhorar o convívio em sociedade, respeitando as diferenças, os limites e características de cada um, sem reduzir a maioria das pessoas a estereótipos.

Flora Bitancourt Sapienza Gramorelli is a permanent professor of the school dance Cia das Artes based in São Paulo, and professor of dance and creative movement in the Association for the Integral Development of Down (ADID, Brazil). Graduated in Arts Body-Dance by the State University of Campinas (Unicamp), she is specialized in Dance Movement Therapy with researches made in Lisbon and London. She is the founder and coordinator of Movimentarte, a project on social inclusion nominated to international awards.