Quando morreu em 1960, vítima de um acidente automobilístico, a reputação de Albert Camus, tido outrora como o maior intelectual francês, já estava em pleno declínio. A recepção de suas obras e ideias até então, no entanto, apontava para um destino diferente. Um pouco antes, em 1957, ele havia sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura e, cinco anos antes, descrito por Hannah Arendt como “o melhor homem neste momento na França” [1].

Ainda nos primeiros anos do pós-guerra, Camus havia surgido como uma figura capaz de influenciar largas faixas da opinião parisiense, incorporando os ideais de engajamento da Resistência e a energia de uma nova geração ávida pela criação de um futuro palpável. Segundo o historiador Tony Judt, “seu estilo, suas preocupações, sua ampla audiência e sua aparente onipresença na vida pública parisiense pareciam encarnar tudo o que era mais caracteristicamente francês na interseção entre literatura, pensamento e engajamento político” [2]. Seus anos de fama e influência, contudo, ficariam para trás e sua reputação só voltaria a crescer quase 30 anos após a sua morte.

Mas então, diante desse quadro, cabe a pergunta: qual foi o desvio imperdoável tomado por Camus, responsável por renegá-lo ao quase total ostracismo nas décadas seguintes à sua morte? A resposta não é simples, mas serve para ilustrar algo da disposição dos grandes intelectuais em se manterem fiéis aos seus valores e ideais.

Surgido como uma das vozes mais confiantes da Resistência no pós-guerra, Camus, assim como grande parte da sua geração, tinha como missão procurar e julgar os colaboracionistas: todos aqueles que haviam mantido algum tipo de relação com o inimigo deveriam ser condenados o mais rápido possível. Em meio a este processo, levado a cabo de modo pouco refletido, Camus passou a questionar algumas ações tomadas por seus pares. Presos a uma divisão binária simplificadora – aquela entre “colaboração” e “resistência” –, eles eram incapazes, segundo Camus, de observar a “zona cinzenta” na qual dilemas, interesses e dúvidas morais se confrontavam. Da convicção energética Camus passou à dúvida reflexiva, causando certo desconforto entre seus pares, ávidos pela necessidade de adotar um lado. Segundo as palavras de Tony Judt: “Nas tensões provocadas pelas divisões da Guerra Fria, ele se viu com duas opiniões quase desde o início”.

Contribuíram também para a perda de credibilidade de Camus suas indisposições com Jean-Paul Sartre – autoridade filosófica máxima na França daqueles anos –, suas posições ambíguas com relação à independência de sua terra natal, a Argélia, e mais uma série de questões que clamavam por um posicionamento mais afirmativo do que aquele que o reflexivo intelectual poderia oferecer. Ainda segundo Tony Judt, os termos com que tentavam classificar Camus dificilmente se aplicavam a ele: “filósofo, intelectual engajado, parisiense – são todas as coisas que Camus não era. Mas ele era, apesar de suas reservas em relação à ideia, muito seguramente um moralista”.

Moralista, na história das ideias francesas, aponta para algo diferente daquilo que o senso comum acredita. “Um ‘moralista’ na França”, explica Judt, “tem sido tipicamente um homem cuja distância do mundo da influência ou do poder lhe permite refletir desinteressadamente sobre a condição humana, suas ironias e verdades […] ser um moralista era levar uma vida inquieta”. Jean-Paul Sartre, no obituário que escreveu sobre Camus, atestou a gênese de sua postura intelectual: “ele representava neste século, e contra a História, o herdeiro contemporâneo dessa longa linhagem de moralistas cuja obra constitui talvez o que é mais singular nas letras francesas”.

Avesso aos modismos intelectuais e aos extremismos políticos, Camus estabeleceu um lugar na história do pensamento do século XX ao justamente ir contra a corrente dominante, mantendo-se fiel àquilo que acreditava – independentemente dos custos e riscos que pudessem acarretar. Mesmo que muito rapidamente, recontar a trajetória de Camus serve, portanto, para defender um ponto: a defesa da independência, mesmo que muito complicada, deve ser a verdadeira missão do intelectual. Outro exemplo talvez ilustre um pouco melhor essa questão.

Dentre esses intelectuais, fiéis aos seus ideais e incólumes contra o medo, está o palestino Edward Said. Sua carreira seguiu basicamente duas vertentes: como professor de Literatura Inglesa e Literatura Comparada e como principal defensor da causa Palestina, tanto na mídia ocidental quanto na árabe. Sua defesa apaixonada da terra que outrora foi sua e de seu povo custou-lhe, em um episódio, seu escritório na Universidade Columbia, onde dava aulas, queimado e vandalizado provavelmente por sionistas radicais. Seu apartamento, no Uptown Manhattan, continha um botão de pânico com ligação direta à polícia nova-iorquina, algo que, para outro inquieto pensador, Noam Chomsky, tratava-se de um caso único entre intelectuais.

O caso de Said, contudo, não é válido apenas por conta dos riscos a que estava submetido. Para além de suas posições favoráveis à questão Palestina, Said se preocupou sistematicamente com o papel público do intelectual.

Em um pequeno ensaio intitulado “Sobre a provocação e o assumir posições” [3], Said estipula seis compromissos a que todo intelectual deveria apelar. São eles: 1) O compromisso com o seu corpo específico de estudos; 2) A necessidade de sair da academia para o mundo; 3) Apontar e provocar o consenso e a ortodoxia; 4) Servir como um guardião e divulgador da memória coletiva; 5) Ter um senso inabalável de independência e 6) Não ter medo de assumir posições. Pretendo agora, no resto deste texto, delinear um pouco cada uma dessas posições.

Em primeiro lugar, o compromisso de todo intelectual deve ser, segundo Said, com o seu campo de estudos. Em suas palavras: “nada substitui o compromisso do professor não somente com os estudantes, mas também com os rigores de sua disciplina” [4]. O intelectual deve, antes de tudo, ter um lugar de onde interpretar o mundo. Esse lugar é a sua disciplina, seu campo de estudos.

Em segundo lugar, o compromisso do intelectual com seu campo de atuações deve ser levado adiante paralelamente ao cuidado com os perigos da especialização. O uso do jargão, os compromissos burocráticos da academia, a aceitação acrítica das principais doutrinas de um dado campo e mais uma série de vícios corporativos acabam por constranger os potenciais de atuação do intelectual engajado. A academia e o conhecimento viram um fim em si mesmo e tornam-se incapazes de abandonar os muros seguros da academia e submeter-se a uma recepção crítica vinda de fora. Para fugir dessa condição, é preciso evitar a linguagem cifrada e se aproveitar da ironia, sem buscar refúgios, assumindo de modo claro aquilo que se quer dizer. É só assim que se consegue levar a mensagem adiante, para além dos muros da academia.

Dando prosseguimento, em terceiro lugar, Said defende que é necessário desenvolver aquilo que chama de vocação intelectual. Trata-se de cultivar um papel que não é meramente o do escritor ou o da autoridade, mas algo a mais, algo como “um oponente do consenso e da ortodoxia” [5]. Assim, “o papel do intelectual não é consolidar a autoridade, mas compreendê-la, interpretá-la e questioná-la”. Dando prosseguimento à questão, conclui: “a vocação do intelectual é essencialmente aliviar de alguma forma o sofrimento humano e não celebrar o que, na verdade, não precisa de comemoração, seja o Estado, a pátria ou qualquer desses agentes triunfalistas de nossas sociedades” [6]. Diante de entidades dotadas de capacidade imensuráveis de autopromoção, o dever do intelectual é criticá-las, oferecendo outros pontos de vista para as narrativas oficiais. O poder, portanto, seja de qual lado estiver, merece ser criticado, pois sua propaganda, sabemos, estará sempre em circulação. O intelectual, por sua vez, não deve endossá-la, mas apontar suas falhas, mentiras e excessos. Seguramente, governo algum precisa de mais um marqueteiro.

Em quarto lugar, outro papel que cabe aos intelectuais que frequentam a esfera pública é, nas palavras de Said, “funcionar como uma espécie de memória coletiva” [7]. Ao intelectual resta “fazer relações que de outro modo permaneceriam escondidas, oferecer alternativas às políticas erradas e lembrar o público” [8]. Lançando mão da história, o intelectual é capaz de relativizar certos acontecimentos e chamar atenção para outros tantos, enriquecendo o debate e mostrando o quanto ele é, por vezes, enviesado, pobre ou, até mesmo, equivocado.

Recentemente, na esteira dos atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo, Noam Chomsky questionou a hipocrisia do Ocidente e sua visão estreita daquilo que considera sua “memória viva” [9]. Ao mesmo tempo em que condenamos os acontecimentos em Paris, deixamos de lado um sem-número de atentados brutais ocorridos no mundo inteiro, que apesar da gravidade não figuram na lista daquilo que consideramos nossa “memória viva”. As causas para tanto têm raiz ideológica e tornam-se, facilmente, discursos oficiais. Cabe ao intelectual, então, complexificar a questão, chamando a atenção para a hipocrisia, para as raízes dos acontecimentos e para as reações que o causam e assim por diante.

Por fim, Said expõe o último ponto da seguinte maneira: “é preciso tentar ser de alguma forma marginal, em vez de se entregar a uma política que acene para a possibilidade de obtenção de cargos” [10]. O lugar do intelectual é à margem, adotando um ponto de vista que preserve sua independência e seu fôlego. Obviamente, como afirma Said, não é “possível fazer muitos amigos dessa maneira”, mas “a atitude de provocação é muito mais importante do que ganhar mais uma distinção ou um prêmio” [11]. E assim deveria ser para todos aqueles que se consideram intelectuais, cujo compromisso deve ser com a verdade e não com a vaidade. Cabe agora, marchando para o final, sugerir algo da atividade intelectual brasileira.

Em livro lançado recentemente, o sociólogo Bolívar Lamounier sugere uma tipologia para classificar os intelectuais que se apresentam na esfera pública. Seriam eles: tribunos, profetas e sacerdotes. Segundo Lamounier, “o tribuno engaja-se na defesa de pessoas, grupos sociais ou valores institucionais de uma forma incidental, ou seja, em situações dadas. O profeta é o portador da boa-nova: a chegada de um novo mundo, ao qual ele promete conduzir aqueles que compartilham sua receita de salvação. O sacerdote é o intérprete autorizado dos livros; é aquele que invoca os cânones sagrados a fim de separar os campos do bem e do mal, do permissível e do não permissível” [12].

O Brasil, por uma série de razões que não cabe esmiuçar aqui, sempre cultivou muitos profetas. Animados pela certeza de possuírem o caminho para um novo mundo, esses intelectuais buscaram se ligar a plataformas que projetassem seus discursos e profecias. Nesse sentido, lembremos dos vários acadêmicos que se juntaram ao poder no país, ocupando sindicatos, secretarias, ministérios, prefeituras e até a presidência.

A presença de um intelectual no poder, é evidente, não é em si algo condenável. O que é condenável, isso sim, é a cooptação da inteligência pelo poder; a perda do senso crítico frente o consenso e a propaganda política. Generalizo, mas a ameaça é sensível: existe uma ligação estreita entre o poder político e uma parcela representativa da comunidade intelectual, o que acaba por paralisar a crítica e bloquear o debate.

Camus, Said, Chomsky: exemplos de intelectuais marginais, fiéis apenas aos seus princípios e valores. Caso queiramos, aqui no Brasil, adicionar alguns nomes ao panteão formado por estes e tantos outros pensadores, é preciso, mais uma vez, declarar nossa independência. Desta vez, ela será declarada frente aos grilhões do poder, da política e da vaidade.

João G. Rizek é pianista e compositor. Formado em cinema e mestre em musicologia, atualmente é assistente de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

[1] JUDT, Tony. O peso da responsabilidade: Blum, Camus, Aron e o século XX francês. Rio de janeiro: Objetiva, 2014. Pág. 125.

[2] Idem. Ibidem.

[3] SAID, Edward. Sobre a provocação e o assumir posições. In: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

[4] Idem, p. 248.

[5] Idem, p. 250.

[6] Idem, ibidem.

[7] Idem, p. 251.

[8] Idem, ibidem.

[9] Link para a entrevista: http://edition.cnn.com/2015/01/19/opinion/charlie-hebdo-noam-chomsky/

[10] Idem, p. 252.

[11] Idem, p. 253.

[12] LAMOUNIER, Bolívar. Tribunos, profetas e sacerdotes: Intelectuais e ideologias no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Pág. 15.