Relatos Selvagens tem como tema a perda do controle. Entre drama e comédia o filme é constituído por seis episódios autônomos, começando sempre com situações a princípio normais que se desenvolvem de forma inusitada levando a ficção aos limites do verossímil, porém sem nunca perder a lógica.

Em tom satírico Relatos Selvagens explora as tensões sociais às quais nos submetemos cotidianamente e traz à tona os instintos que todos nós reprimimos. Onde está a verdadeira violência: nos colapsos nervosos dos personagens ou na contenção desses instintos, face a situações injustas?

A analogia entre humanos e animais já está presente no título, e ganha força nos créditos iniciais, que aparecem sobre imagens de animais selvagens. Também no cartaz os personagens olham diretamente para a câmera, sérios e tensos, como felinos que se preparam para o ataque.

Relatos Selvagens se revela uma celebração dos instintos humanos na medida em que o espectador, junto com os personagens, encontra um prazer cada vez maior em ver a violência surgir conforme os personagens perdem o controle. À identificação inerente ao aparelho de base cinematográfico se soma a uma temática que tange a todos que vivem em sociedade, de forma a criar no espectador uma grande empatia pelos personagens. Assim, para além de sua técnica impecável, humor inteligente e atores extraordinários, o maior êxito do filme está em sua temática e em como ela é tratada.

Sobre o aparelho de base

A identificação do sujeito com o aparato cinematográfico é um ponto essencial da construção da ideologia no cinema. Em seu texto Cinema: Efeitos Ideológicos Produzidos pelo Aparelho de Base[1], Jean-Louis Baudry analisa como aparelho cinematográfico necessariamente transmite ideologia. O autor descreve dois níveis nos quais essa identificação opera.

Primeiramente há uma analogia entre a câmera e o olho do espectador, posto que é através dela que o filme é visto. Os processos de dissimulação do aparelho técnico (como a montagem invisível[2] ou a negação da diferença[3]) são essenciais para a construção da continuidade no cinema. O efeito de “impressão de realidade”, descrito por Christian Metz, criado a partir de uma combinação destes e outros fatores, é essencial para criar a ilusão de que o espectador está diante da realidade objetiva registrada pela câmera, ou seja, ela mimetiza o olhar. A câmera-olho, idealmente posicionada na cena em relação à organização dos objetos visualizados, assume a posição que o sujeito deve necessariamente ocupar.

Em seguida Baudry faz um paralelo entre o espectador sentado na sala escura recebendo estímulos externos (visuais e sonoros) e o que Lacan denominou “fase do espelho”, momento no qual a criança tem suas primeiras experiências de identificação a partir de sua relação com o mundo, com a mãe e com o espelho propriamente dito. É nesse momento que a criança começa a entender seu corpo como unidade e a esboçar a constituição do “eu” como formação imaginária. “Mas para que esta constituição imaginária do “eu” possa ter lugar são necessários – Lacan acentua enfaticamente este ponto – duas condições complementares: a imaturidade motriz e a maturação precoce de sua organização visual.[4]

Desta forma, a partir dos mecanismos de identificação com o cinema ao ver estes relatos o espectador experimenta o prazer da realização desta violência que não cabe no mundo real.

Sobre a civilização

A civilização pressupõe a adaptação do indivíduo às normas sociais. Para tal ele deve suprimir suas pulsões internas, respeitando uma ética e uma moral que pertencem ao grupo. Em O Mal-Estar da Civilização Freud enuncia três grandes fontes do sofrimento humano: “o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade”[5]. As duas primeiras estão acima do nosso controle, já no caso da terceira, o que é perturbador é que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos (como comunidade) causem sofrimento.

A vida em sociedade só é possível se cada indivíduo impedindo suprimir sua vontade arbitrária em prol da comunidade ou seja, há um conflito constante entre o interno e o externo. “A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação, ao passo que o indivíduo desconhece tais restrições.”[6].

Relatos Selvagens traz um questionamento sobre o quanto essa insatisfação com o estado de civilização pode se revelar em pequenas opressões às quais somos submetidos cotidianamente. No episódio “Bombita” o personagem tem seu carro guinchado diversas vezes e é sempre obrigado a pagar a multa e o guincho, até chegar no ponto onde a explosão parece ser a única solução possível. Em entrevista ao Antena 3 o ator Ricardo Darín declara:

“Normalmente estamos acostumados a registrar a violência quando algo sangra, quando algo se rompe, quando algo se quebra, quando algo explode, mas dificilmente estamos tão atentos, ou tão focados quando o que sangra sangra por dentro, quando o que dói não se vê, quando o que machuca e humilha pode provocar que uma pessoa esteja submetida à uma grande pressão e isso nós não vemos, não estamos atentos a isso.” [7]

Sobre o prazer

A frase do pôster “todos podemos perder el control”, que foi traduzida para o português como “qualquer um pode perder o controle”, nos lembra que as histórias que assistimos no longa poderiam acontecer com todo mundo. Além disso o começo de cada episódio é sempre uma situação normal, enfatizando que o limite entre o nosso mundo e o desses personagens selvagens é muito tênue.

Assim o prazer do espectador ao assistir a esses relatos reside na identificação com o sentimento desses personagens fora de controle, que agem segundo suas vontades. Sendo assim, como disse o diretor em entrevista no Festival de Sitges (2014)[8], não se trata de um filme sobre perder o controle, “é um filme sobre o prazer de perder o controle, sobre o prazer de reagir, o prazer de se defender, de não se deixar esmagar”.

[1] BAUDRY, Jean-Louis, Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base, in.: A experiência do cinema, XAVIER, Ismail (org), São Paulo, graal, 2008.

[2] Entende-se por montagem invisível o procedimento usado para atenuar o contraste entre duas imagens diferentes, dando assim a ilusão de uma continuidade visual.

[3] Baudry explica que a ilusão de movimento é criada pela sequência de imagens diferentes umas das outras (do contrário não haveria movimento), porém as imagens não podem ser muito diferentes entre elas, pois isso causaria uma quebra de continuidade, um ruído. Sendo assim a diferença entre as imagens que se sucedem deve ser dissimulada a ponto de se tornar quase imperceptível. BAUDRY, Jean-Louis, Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base, in.: A experiência do cinema, XAVIER, Ismail (org), São Paulo, graal, 2008, p. 390.

[4] BAUDRY, Jean-Louis, Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base, in.: A experiência do cinema, XAVIER, Ismail (org), São Paulo, graal, 2008, p. 395/396.

[5] FREUD, Sigmund, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud – volume XXI, Rio de Janeiro, Imago, 2006, p. 93.

[6] Idem, p. 101

[7] Tradução livre da entrevista de Ricardo Darín no canal televisivo Antena 3, vídeo disponível no link (acessado em janeiro/2015): https://www.youtube.com/watch?v=dwxxCF-kczE

[8] Tradução livre do vídeo disponível no link (acessado em janeiro/2015): https://www.youtube.com/watch?v=hxyL61ZeW9Q