Em A Hora do Lobo (1966) Johan Borg e sua esposa vivem numa ilha, isolados do resto do mundo. Ele tem devaneios nos quais vê pessoas-demônios que o convidam para viver num sonho, enquanto Alma, sua esposa, representa a realidade. A discussão proposta pelo filme é justamente este embate entre o mundo real e o mundo os sonhos, onde vivem os demônios.

“Subitamente tive a possibilidade de me corresponder com o mundo numa linguagem que fala de alma para alma, em termos que, quase de maneira voluptuosa, escapam ao controle do intelecto”- Ingmar Bergman[1]


 

                 Ingmar Bergman é autor de um cinema que se aproxima de cineastas como Fellini e Antonioni, no sentido de que os três quebram com a narrativa clássica e retratam uma crise existencial. Nos cinemas destes três autores pode-se observar um reconhecimento da impossibilidade de emancipação do indivíduo face à ideologia burguesa dominante. Sendo assim antecipa-se que de modo geral os seus filmes apresentam uma certa tensão, uma desilusão. Isso se deve em muito ao fato de que tanto Bergman, quanto Fellini e Antonioni produzem num momento de desesperança e de decadência de utopias. Além dos efeitos da Segunda Guerra, depois de 1945, o mundo sofre uma polarização ideológica, motivo da tensão entre EUA e URSS, o que provoca uma angústia no homem moderno que se reflete nas artes.

                 Há porém uma diferença brutal entre Bergman e os outros dois cineastas citados, que é o fato de que enquanto nas obras destes as questões sociais e políticas ocupam um lugar importante, aquele se afasta de tal discussão na medida em que mergulha numa crise subjetiva mais centrada no indivíduo e, portanto, atemporal. Como o próprio autor diz na citação acima seu cinema “fala de alma para alma”. Sendo assim a crise do indivíduo, do modo como é tratada pelo cineasta sueco, é universal. Em seus filmes não há referências a acontecimentos históricos específicos, ele trabalha numa chave de atemporalidade. Sendo assim, focado nas contradições internas do indivíduo, Bergman dialoga com conceitos de Freud, propondo uma leitura do inconsciente através de temas como religião e sexualidade. Ele busca trazer o ID das personagens à tona exteriorizando-o, de modo a explicitar seus desejos primitivos.

                 Em A Hora do Lobo (1966) Johan Borg e sua esposa vivem numa ilha, isolados do resto do mundo. Ele tem devaneios nos quais vê pessoas-demônios que o convidam para viver num sonho, enquanto Alma, sua esposa, representa a realidade. A discussão proposta pelo filme é justamente este embate entre o mundo real e o mundo os sonhos, onde vivem os demônios.

                 A ilha onde eles moram é isolada do resto do mundo, o que dá a impressão de que se trata de um plano alegórico, atemporal e universal. O filme se desenrola numa “paisagem crepuscular”[2], os cenários são sempre sombrios e a iluminação escassa, diferente de Persona (1965), por exemplo, onde as imagens são mais claras, os espaços são mais abertos e o horizonte da praia tem um papel importante. Já em A Hora do Lobo o espectador é levado a ambientes cada vez mais fechados e escuros, quase como se adentrasse a mente do protagonista. Em muitas cenas as personagens acendem velas e a iluminação do ambiente é construída como se esta fosse a única fonte de luz. Vale ressaltar, ainda na questão da fotografia que, durante grande parte do filme, as personagens são iluminadas de modo que apenas metade dos rostos recebe luz, enquanto a outra metade fica no escuro, evocando a já citada dualidade consciente/inconsciente, sonho/realidade. Assim, essa divisão, que se dá no plano metafísico, se manifesta no âmbito da imagem, nos próprios rostos das personagens.

                 O protagonista é pintor, explorador de sua subjetividade e tem uma grande atração pelo imaginário, perseguindo o mundo dos sonhos de forma obsessiva. Alma, por sua vez, tem uma obsessão por Johan. Ela quer ver o que ele vê, pensar como ele pensa e viver como ele vive, como ela diz no fim do filme, talvez seja este o motivo de ela passar a ver também os demônios que ele via. Contudo, ela fica apreensiva durante todo o filme, não se deixando levar pelo mundo dos sonhos e tentando evitar que Johan se entregue. Ele está imerso em sua crise subjetiva, mas se sente dividido e se vê obrigado a fazer uma escolha entre viver uma com Alma, que é seu laço com o mundo real, ou se entregar ao mundo dos demônios. Ademais no filme há dois momentos extra-diegéticos, no começo e no final, em que Alma, olhando diretamente para a câmera, fala diretamente ao espectador fazendo a ponte entre ele e o filme, ajudando-o a entrar na narrativa.

                 Johan vai entrando cada vez mais no mundo do imaginário. No início há algumas cenas em que pessoas aparecem repentinamente perto dele e depois desaparecem, sem nenhuma explicação sobre como elas teriam chegado lá ou de onde teriam vindo. Depois é revelada ao espectador a existência de um castelo onde vivem essas personagens-demônios. A partir daí os devaneios ficam cada vez mais frequentes e os encontros com essas personagens cada vez mais insólitos.

                 No começo do filme uma mulher aparece para Johan e começa a ler uma carta: “Você não nos vê, mas nós vemos você. Coisas horríveis podem acontecer, sonhos podem se tornar reais (…)”. Tudo indica que a carta foi enviada pelas personagens-demônios e que se trata de uma espécie de profecia. Algumas cenas depois há um momento em que ele descreve para Alma um sonho seu no qual uma mulher não pode tirar o chapéu pois seu rosto sairia junto. Mais tarde, quando ele já está no castelo, em meio a vários acontecimentos não realistas, uma mulher tira o chapéu e em seguida puxa a pele do rosto, que sai como uma máscara. Em outra cena, ainda nesta sequência que se passa dentro do castelo, Johan diz que a barreira foi ultrapassada e que o espelho foi quebrado, dando a entender que este mundo do inconsciente transborda para a realidade material.

                 Outro momento marcante, é quando ele se deixa ser maquiado por Lindhorst antes de encontrar-se com Veronica Vogler. Esta cena evoca outro aspecto importante da obra que é a influência do teatro. Esta influência aparece no comportamento pouco realista das personagens-demônio ao longo de todo o filme e principalmente na cena em que o casal visita o castelo pela primeira vez, quando os demônios fazem um teatro de marionetes. Assim na cena em que Lindhorst maquia Johan seria plausível um paralelo com um ator que se prepara para entrar em cena. Neste momento Johan se prepara para entrar no mundo dos sonhos, mostrando-se mais tranquilo, sem questionar a maquiagem pouco realista. Há também uma simbologia que é explicada por Bergman em Imagens:

Lindhorst faz uma maquilagem meio apalhaçada, meio feminina, além de lhe vestir com um chambre que enfemina ainda mais Johan. Os chamados palhaços brancos têm um simbolismo ambíguo: são bonitos, mas insensíveis, perigosos, oscilando entre a morte e uma sexualidade destruidora.[3]

                 Johan opta então por viver o sonho com os demônios, abandonando Alma e a realidade. Desta forma Bergman usa-se de temas como sensualidade, morte e sonho para tratar da crise subjetiva do indivíduo. Nos momentos mais tensos do filme estão presentes estas questões, seja esteticamente, como na cena em que ele acaricia o corpo de Veronica Vogler enquanto esta se finge de morta, quanto na fala, como numa cena obscura em que ele explica para Alma o significado da hora do lobo; a hora em que a maioria das pessoas morre e a maioria das crianças nasce. Toda essa crise subjetiva observada em Bergman e em seus contemporâneos traz a desesperança e o desolamento para com o mundo moderno. Para Johan a solução é abandonar a realidade objetiva e se entregar ao mundo de sua subjetividade.

 

[1] BERGMAN, Ingmar, Imagens, Ed Matins Fontes, São Paulo, 2009, pág. 35

[2] BERGMAN, Ingmar, Imagens, Ed Matins Fontes, São Paulo, 2009, pág. 41

[3] BERGMAN, Ingmar, Imagens, Ed Matins Fontes, São Paulo, 2009, pág 35