PL.0035.0.00.RC-low
Leonilson
So many days, 1989
Tinta preta sobre papel
29,5 x 21,0 cm
Foto: Rubens Chiri

The drawing is the most direct form of image creation. It happens from the thoughts to the hand, from the hand to the paper and there, in this very moment it is made what may be an immediate note, expression, representation, invention.


Desenhava bastante, diariamente, e tal como fazia nas pinturas, nesses desenhos registrava o que estava vivendo, pensando e principalmente sentindo. No entanto, essas duas ações de desenhar e de pintar, muito embora caminhassem paralelamente como sendo registros poéticos de seu estado pessoal momentâneo, eram organizadas de maneiras diferentes. Intensidades e tensões variavam de uma pra a outra. Os desenhos eram feitos geralmente, numa mesinha que ficava no quarto, sobre a qual havia sempre blocos e cadernos de vários tamanhos. Usava lápis de cor primeiro, depois passou a usar uma canetinha preta. Pras pinturas era necessário mais energia, o ateliê ficava na garagem e era um pouco frio. As pinturas por serem compostas por mais elementos implicavam riscos, um numero maior de decisões e mais tempo de organização. Os desenhos eram feitos no tempo que sobrava, num tempinho que surgia em alguma hora do dia ou de noite e muitas vezes nas viagens. Era muito raro que fizesse um só, normalmente fazia um conjuntinho de 3 a 5 desenhos de cada vez. Era econômico com a aquarela, usava poucas manchas.

Num estado de concentração singular, porém relaxado, elaborava desenhos com aguçado poder de síntese com traços claros e definidos, sem gestos desperdiçados. Com uma medida precisa organizava imagens quase sempre narrativas, figurativas, simbólicas. Essas imagens eram muitas vezes acompanhadas de textos igualmente sintéticos com forte caráter poético. O texto em letra de forma, como a utilizada nos bilhetes, não necessariamente auxiliava na compreensão, outrossim ampliava os sentidos criando uma figura duplicada, resultado da soma do que se vê com aquilo que se lê.  A combinação desses elementos originava desenhos alegóricos, ricos em metáforas com imagens cujos sentidos se alteravam dependendo do modo como fossem dispostas. Metáforas como a contida na imagem recorrente do vulcãozinho em erupção, evocando a potência de acontecimentos explosivos.

A escala, desenhos pequenos em papeis pequenos, é uma importante chave de configuração da sua natureza intimista. O observador é obrigado a se aproximar, em alguns casos, a se aproximar muito mesmo, para adentrar na narrativa das figuras que ali estão colocadas tal como uma caligrafia cumprindo sentidos próprios, ainda que, sempre dentro de um repertório específico e de um vocabulário de ordem pessoal. Uma vez que se esteja bem perto, então, será possível compartilhar confissões e sonhos e se sentir parte disso. Num excelente exemplo de quando o particular devidamente potencializado se torna universal, criando intensa e imediata identificação por parte de quem vem observar.

Curiosamente o universo das mentiras exercia sobre ele um estranho encanto. Era atraído pela velocidade inverossímil das conversas fabulosas e pelo caráter absurdo da invenção deliberada. Mentiras como essas que se diz por ai, a torto e a direito, que vão desde a mentirinha boba passando pela invenção total e indo até a mais pura falsidade. Sentia uma fascinação declarada por esse assunto, ora se preocupava, ora se divertia e falava bastante disso, o que por oposição, faz pensar na atitude tão sincera que assumia diante dos desenhos. Operava com liberdade e segurança um espaço onde reafirmava as verdades que experimentava separando-as de todo o resto. Numa atitude de proteção, os desenhos pareciam funcionar como uma espécie de filtro e eram para ele uma eficiente ferramenta de compreensão sobre as coisas do mundo. Dono de uma tranqüilidade relativa, filtrava dessa maneira, a realidade que tantas vezes nos surge turva e embaralhada, difícil de decifrar. No caso dos desejos, as imagens reafirmavam toda sorte de fantasias e sentimentos cuidadosamente anotados como numa mensagem amorosa, onde as palavras nem faltam nem sobram. Deste modo o desenho acontecia em sua vida como um instrumento de clarificação dos eventos, como sendo um reino seu, próprio, de certezas alcançadas, onde as verdades não oscilam permanecendo a salvo, guardadas, garantidas.

PL.0134.0.00.EO-low

Leonilson
A 21 Bienal tem aroma de peixaria, 1991
Tinta preta sobre papel
18 x 12,5 cm
Foto: Eduardo Ortega

Leda Catunda é nascida em São Paulo, onde vive e trabalha, formou-se em 1984 em Artes Plásticas na FAAP. Expõe desde 1981 em museus e galerias no Brasil e em diversos países, tendo participado de três edições da Bienal de São Paulo. É Doutora em Artes pela Universidade de São Paulo desde 2003